sábado, outubro 01, 2016

lux perpetua






Réqüiem ætérnam dóna éis, Dómine:
et lux perpétua lucéat éis.
In memória ætérna érit iústus,
ab auditióne mála non timébit.



sábado, agosto 27, 2016

domingo, junho 12, 2016

Rubai #87

Hoje, na fronteira da blasfémia: 
Colhe os frutos que a vida te oferece
e escolhe as taças maiores;
Não creias que Deus vá fazer as contas
dos teus vícios e das tuas virtudes.
 Rubayiat, Omar Khayyam.

sábado, maio 07, 2016

Caminhar duas horas aa chuva e ao vento






No final, água até aos ossos, mas nada de resfriado.

Rubai #3

Olha com indulgência aqueles que se embriagam,
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.

Rubaiyat; Omar Khayyam

quinta-feira, outubro 01, 2015

"Pra Sempre"

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

"Pra Sempre", de Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, maio 05, 2015

"Conta e Tempo"

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? 
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo. 
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta! 
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo... 

Este magnífico soneto, atribuído a Frei António das Chagas (1631-1682) parece que passou a letra de fado. Esperemos que fique bem.


sexta-feira, abril 24, 2015

Abril 24, centenário do genocídio dos cristãos turcos

A 24 de abril de 1915, o governo dos "Jovens Turcos" juntou em Constantinopla entre 200 a 300 membros da elite intelectual arménia. Serão todos assassinados nesse dia ou nos dias seguintes. Este acontecimento marca o início da tragédia humana que ficou conhecida por "genocídio arménio". No entanto, a eliminação dos arménios turcos como prática política começou nos finais do século 19, à medida que o Império Otomano dava sinais crescentes de decadência.

O "genocídio arménio" foi a componente maior da limpeza étnica ocorrida nos anos finais do império Otomano e na recém criada República Turca. No primeiro caso, os "jovens turcos" tomaram os arménios como bode expiatório dos fracassos militares otomanos na guerra contra os russos; no segundo, os "kemelistas" continuaram mais discretamente a eliminação dos arménios considerados como minoria indesejável no processo de turquificação de toda a população da nova república.

Mas a eliminação de minorias étnicas na Turquia  não se abateu apenas os arménios, estendeu-se também aos gregos pônticos e aos assírios. Argumenta-se que estes genocídios  e foram uma forma de "turquificar" toda a população do país. Mas esta asserção é uma imprecisão porque os curdos e os árabes, também eles minorias étnicas importantes no que sobrava do território do império otomano, não foram massacrados.

O triplo genocídio de arménios, gregos pônticos e assírios foi sistemático e coincidiu no tempo e no espaço. Estas populações tinham uma caraterística comum: eram cristãs, e por esse facto foram encaradas pelos otomanos, primeiro, e pelos nacionalistas turcos, depois, como capazes de perturbar a unidade e coesão do país.

Assim, o triplo genocídio deve ser enquadrado num acontecimento que falta tomar como um todo, o "massacre dos cristãos turcos", que ocorreu entre 1915 e 1923, em que foram mortas mais de 2 milhões de pessoas, e que tornou residual o número de habitantes não-muçulmanos na Turquia, sabendo-se que, antes dos massacres, os cristãos na Turquia representavam cerca de 19% da população.



quinta-feira, abril 16, 2015

Orpheu - centenário

Em março de 1915 foi publicado o primeiro número da Orpheu, "revista trimestral de literatura". Foi ainda publicado o número 2 da revista (abril - junho), mas depois o mecenas financiador desistiu do projeto.

A Orpheu abria uma nova estética e foi um acontecimento cultural mal compreendido no ambiente de loucura social e política que se vivia então em Portugal. Aquele foi um tempo de disputas e intransigências e incompreensões e verdades absolutas. A importância da Orpheu só veio a ser reconhecida mais tarde, como acontece tantas vezes com o que inova e choca com a realidade sedimentada em que nasce.

Em baixo, extrato de "O Marinheiro", de Fernando Pessoa, publicado no número 1 da Orpheu, um trílogo de veladoras na angústia da chegada da alvorada.





sexta-feira, março 20, 2015

"Canção da Primavera"

A "Canção da Primavera", de Francisco Filipe Martins, que melhor era chamar-se "Saudade".



quarta-feira, fevereiro 25, 2015

A felicidade é redonda, o tempo é retilíneo

[N]asce no espírito de Tereza um pensamento blasfemo, de que não consegue livrar-se: o amor que a une a Karine [a sua cadela] é melhor do que o amor que a Tomas [o seu marido]. Melhor, e não maior. […]
É um amor desinteressado, Tereza não quer nada de Karine. Nem sequer exige que ela a ame. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: “Ele gosta de mim? Já terá amado alguém mais do que me ama? Ama-me mais do que eu o amo?”. Todas estas interrogações que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, o inspecionam, não se arriscarão a matá-lo na casca? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, ou seja, por querermos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem reivindicações e não querermos senão a sua simples presença. […] 
O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evolução. Karine ia traçando em torno de Tereza e de Tomas o círculo da sua vida fundada na repetição e esperava o mesmo deles.
Se em vez de ser um cão, Karine fosse um humano, certamente que já teria dito a Tereza há muito tempo: ”Ouve lá, já estou farto de vir todos os dias com um croissant na boca. Não és capaz de me arranjar outra coisa?” Nesta frase, encontra-se resumida toda a maldição do homem. O tempo humano não anda em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o ser humano não pode ser feliz. A felicidade é o desejo da repetição.
Sim, é verdade, a felicidade é o desejo de repetição.

Nestes trechos da 'Insustentável Leveza do Ser', de Milan Kundera, confirmo duas suspeitas antigas:

- se alguém disser, “gosto de ti como tu gostas do teu gato ou do teu cão”, poderia também dizer “podes encontrar quem goste tanto de ti como eu (pode até ser o teu gato, o teu cão), mas não encontrarás quem goste mais de ti do que eu”.
- quem regressa uma e outra vez aos lugares em que se sentiu bem, é mais feliz do que quem busca sempre lugares novos pra se sentir bem.

 "O tempo humano não anda em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o ser humano não pode ser feliz. A felicidade é o desejo da repetição."

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Um Mundo Quase Totalmente Imperfeito

Este mundo está mal concebido; quem duvidar, pode confirmar aqui.

Quem amou alguma daquelas mulheres apenas pelo sua beleza não amou verdadeiramente. Quem amou de verdade alguma daquelas mulheres, vai amá-la sempre, porque vai continuar a ver nela o que a sua pele já não mostra.

Só o amor verdadeiro - ao que quer que seja - evita que este mundo seja totalmente imperfeito.