sábado, março 18, 2017

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 "Com cinquenta e seis anos ainda se pensa que se é novo. Ainda se imagina que poder e energia são infinitos e eternos! Ainda se pensa que se vai viver para sempre! E no entanto, só se está agarrado à juventude por um fio, não por um cordão, nem por um cabo, e esse fio pode rebentar a qualquer momento, e vai rebentar em breve, de qualquer maneira. E depois, onde é que ficamos? 
«A vingança é minha - disse o Senhor - e vou ser pago». Nunca ninguém se lembrou de avisar acerca disto, ou avisaram?"
Em "Um Homem em Cheio", de Tom Wolfe.

sábado, fevereiro 25, 2017

A Vida em Pleno

"Se a Vida É", uma canção dos Pet Shop Boys já com uns aninhos, é um apelo aa vida vivida em pleno, muito ao jeito dos anos oitenta embora a canção seja de 1996.

A versão mais longa do vídeclip tem um preâmbulo com diversas cenas que simulam e simbolizam o mergulho dramático do espírito na matéria, a encarnação, a vivificação da Terra pela alma humana e a felicidade e beleza que ela pode trazer. É esse clip que fica aqui hoje.

"Se a Vida É" tem ainda outras "coisinhas" que fazem a diferença;
A primeira; além, da frase em português que dá título ao tema, tem esta outra, "como essa vida é". Neste caso aparece geralmente transcrito na internet "come on" ("vamos lá") mas, não, é mesmo "como essa vida é", até porque logo em seguida aparece a tradução "that's the way life is".
A segunda, os tambores da Bahia, que dão uma força especial em tudo o que é música, e esta em particular por pretender cativar o interesse dos fans brasileiros.



domingo, dezembro 25, 2016

Il est né, le divin enfant

Em dia de Natal, um cantico tradicional francês do séc.17, recolhido e divulgado no séc.19.

Uma curiosidade: na canção, na dicção da palavra "divin" usa-se a pronúncia da época em que a sílaba final /in/ ainda soava como se escrevia, e não como o atual /an/.

sexta-feira, novembro 11, 2016

A Capa de São Martinho e uma Sinfonia

“Num dia frio e chuvoso de inverno, Martinho seguia montado a cavalo quando encontrou um mendigo. Vendo o pedinte a tremer de frio e sem nada que lhe pudesse dar, pegou na espada e cortou o manto ao meio, cobrindo-o com uma das partes. Mais à frente, voltou a encontrar outro mendigo, com quem partilhou a outra metade da capa. Sem nada que o protegesse do frio, […] diz a lenda que, nesse momento, as nuvens negras desapareceram e o sol surgiu. O bom tempo prolongou-se por três dias.
Na noite seguinte, Cristo apareceu a Martinho num sonho. Usando o manto do mendigo, voltou-se para a multidão de anjos que o acompanhavam e disse em voz alta: “Martinho, ainda catecúmeno [que não foi batizado], cobriu-me com esta veste”.

Este é o episódio mais popular da vida Martinho (316-397), que veio a ser bispo de Tours e depois canonizado pela Igreja Católica, que lhe dedica anualmente o dia 11 de novembro. O texto citado e os marcos principais da vida de São Martinho podem ser lidos aqui. Este relato entronca numa das virtudes teologais da Igreja Católica, a caridade, palavra quase sempre restrita ao catolicismo, de tal modo que por vezes parece ficar difuso que significa amor ao próximo, benevolência, compaixão.

Ora, existe um relato bíblico com sentido oposto ao da caridade; usando, como tantas vezes, uma parábola para se fazer entender pelo povo, Jesus relata o destino do homem rico e soberbo que recusou ajuda a Lázaro, o mendigo que lhe pedia compaixão (Lucas, 16:19-31).

A parábola do Homem Rico e Lázaro entrou na tradição popular musical inglesa sob a designação 'Dives and Lazarus'. Foi recolhida por Sylvester Garland e incluída numa coletânea de 'carols' (cânticos natalícios) publicada em 1861 em Londres (fonte).

Existem duas versões da letra popular de 'Dives and Lazarus' (ver). Quanto aa melodia, no Youtube está disponível uma versão ‘a capela’ fiel ao original (ver).

A melodia popular de 'Dives and Lazarus' foi adaptada e usada pelo britânico Vaughan Williams para compor uma peça sinfónica linda. E essa sinfonia que fica aqui, em dia de São Martinho.


sábado, outubro 01, 2016

lux perpetua






Réqüiem ætérnam dóna éis, Dómine:
et lux perpétua lucéat éis.
In memória ætérna érit iústus,
ab auditióne mála non timébit.



sábado, agosto 27, 2016

domingo, junho 12, 2016

Rubai #87

Hoje, um poema na fronteira da blasfémia: 
Colhe os frutos que a vida te oferece
e escolhe as taças maiores;
Não creias qe Deus vá fazer as contas
dos teus vicios e das tuas virtudes.
 Rubayiat, Omar Khayyam.

sábado, maio 07, 2016

Caminhar duas horas aa chuva e ao vento






No final, água até aos ossos, mas nada de resfriado.

Rubai #3

Olha com indulgência aqueles que se embriagam,
os teus defeitos não são menores.
Se queres paz e serenidade, lembra-te
da dor de tantos outros, e te julgarás feliz.

Rubaiyat; Omar Khayyam

quinta-feira, outubro 01, 2015

"Pra Sempre"

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

"Pra Sempre", de Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, maio 05, 2015

"Conta e Tempo"

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? 
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo. 
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta! 
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo... 

Este magnífico soneto, atribuído a Frei António das Chagas (1631-1682) parece que passou a letra de fado. Esperemos que fique bem.


sexta-feira, abril 24, 2015

Abril 24, centenário do genocídio dos cristãos turcos

A 24 de abril de 1915, o governo dos "Jovens Turcos" juntou em Constantinopla entre 200 a 300 membros da elite intelectual arménia. Serão todos assassinados nesse dia ou nos dias seguintes. Este acontecimento marca o início da tragédia humana que ficou conhecida por "genocídio arménio". No entanto, a eliminação dos arménios turcos como prática política começou nos finais do século 19, à medida que o Império Otomano dava sinais crescentes de decadência.

O "genocídio arménio" foi a componente maior da limpeza étnica ocorrida nos anos finais do império Otomano e na recém criada República Turca. No primeiro caso, os "jovens turcos" tomaram os arménios como bode expiatório dos fracassos militares otomanos na guerra contra os russos; no segundo, os "kemelistas" continuaram mais discretamente a eliminação dos arménios considerados como minoria indesejável no processo de turquificação de toda a população da nova república.

Mas a eliminação de minorias étnicas na Turquia  não se abateu apenas os arménios, estendeu-se também aos gregos pônticos e aos assírios. Argumenta-se que estes genocídios  e foram uma forma de "turquificar" toda a população do país. Mas esta asserção é uma imprecisão porque os curdos e os árabes, também eles minorias étnicas importantes no que sobrava do território do império otomano, não foram massacrados.

O triplo genocídio de arménios, gregos pônticos e assírios foi sistemático e coincidiu no tempo e no espaço. Estas populações tinham uma caraterística comum: eram cristãs, e por esse facto foram encaradas pelos otomanos, primeiro, e pelos nacionalistas turcos, depois, como capazes de perturbar a unidade e coesão do país.

Assim, o triplo genocídio deve ser enquadrado num acontecimento que falta tomar como um todo, o "massacre dos cristãos turcos", que ocorreu entre 1915 e 1923, em que foram mortas mais de 2 milhões de pessoas, e que tornou residual o número de habitantes não-muçulmanos na Turquia, sabendo-se que, antes dos massacres, os cristãos na Turquia representavam cerca de 19% da população.