domingo, setembro 09, 2012

De Ferreira à Codosera - os falares portugueses

Em algumas localidades dos municípios espanhóis de Ferreira, Cedilho, Valença e Codosera, fronteiros com a Beira Baixa ou o Alto Alentejo, até há alguns anos o Português ou dialetos portugueses eram usados na conversação entre vizinhos.

Estes falares portugueses tinham origens distintas.


No caso de Ferreira (Herrera de Alcántara), o dialeto local, designado Ferreño, ainda falado pela população mais idosa, tem traços medievais que indiciam uma origem antiga, eventualmente remontando à pertença a Portugal até 1297. O possível povoamento do território com colonos portugueses após a expulsão dos muçulmanos, o corte administrativo com Portugal e o afastamento geográfico de outras localidades espanholas em contraponto com a proximidade de localidades portuguesas, permitiu que o falar do povo mantivesse durante séculos caraterísticas únicas, antigas e aportuguesadas.


Alguns quilómetros a nascente de Ferreira fica Santiago, também a sul do Tejo internacional. A influência do Português restringe-se hoje ao sotaque semelhante ao da pronúncia da Beira Baixa.


Quanto aos falares portugueses das localidades raianas dos municípios de Cedilho, Valença e Codosera, esses têm origem diferente do Ferreño por serem mais recentes (século 17 e seguntes). Nestes casos, os falantes são descendentes de portugueses que passaram a fronteira.


O lado português da fronteira do Alto Alentejo teve sempre maior densidade populacional que o lado espanhol. A atuação das forças regulares e irregulares portuguesas durante a Guerra da Restauração (1640-1668) veio agravar o despovoamento do ocidente da Extremadura, especialmente na campina nascente da Serra de São Mamede. 

Depois de 1668, a região foi duas outras vezes assolada por confrontos com Portugal, primeiro aquando da participação portuguesa na Guerra de Sucessão Espanhola (1704-14), e depois na Guerra Fantástica (1762). A fraca densidade populacional do ocidente da Extremadura continua hoje a ser explicada pelo despovoamento provocado pelos enfrentamentos militares com Portugal nos séculos 17 e 18.

A após o final da Guerra da Restauração, muitos portugueses foram ocupar terras desabitados no lado espanhol contíguo ao Alto Alentejo. Estes fluxos migratórios continuaram durante décadas e foram reforçados pelas ligações comerciais e familiares dos habitantes com os lugares do lado português da fronteira, geograficamente mais acessíveis.


Para além dos vestígios dialeticais, a presença portuguesa está hoje patente na toponímia de alguns lugares, designadamente:

“Casiñas”, diminuitivo Português de “casas”, estranho ao Castelhado:
“Fontañera”, derivado do Português “fonte” e não do Castelhano “fuente”
“Chandavila” do Português Chão da Vila.
“Tojera” palavra inexistente em Espanhol, que deriva do Português ‘tojeira
"Rabaza", estranho ao Castelhano, a que corresponde o Português "rabaça", aliás, nome de localidade portuguesa a poucos kilometros de Rabaza.


Nas últimas décadas a influência do Português foi decaindo a ponto de ter sido totalmente perdida ou dela restar apenas traços no falar dos mais velhos. Os motivos da anulação da influência do Português foram a generalização da escolarização a partir do final da Guerra Civil espanhola que aproximou os mais novos do Castelhano, a influência crescente da administração pública, a emigração para outros lugares de Espanha, e a regressão demográfica. No caso de Ferreira e de Cedilho, acresce ainda a ausência de pontes no Tejo internacional num tempo em que a mobilidade depende da rodovia, pelo que a ligação destes povoados isolados passou a ser feita mais com outras localidades espanholas e não com lugares portugueses, ao contrário do que aconteceu até à primeira metade do século 20.

  Sobre o tema:
- Na Tojera “fala-se" link ;
Entrevista com António Piris, 90 anos, de nacionalidade espanhola, habitante de Bacoco, Codosera; de notar o afloramento de palavras e expressões portuguesas link ;
- Trailer do documentário “Entre Línguas” sobre os falares portugueses de Espanha link ;
- “Falantes de dialectos fronteiriços da Extremadura espanhola no último século”, Juan Carrasco, 2007 link ;
- "Literatura oral de Cedillo a Herrera de Alcántara", Maria da Conceição Vilhena, 1989, link .


Pós texto:
- Apresentação do livro "La Codosera un Pueblo con Raizes y Costumbres Rayanas" de José Berrocal linklink do vídeo.


Relacionado: Ferreira do Tejo

Para um destes dias De Ferreira à Codosera - guerras luso-espanholas.

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