terça-feira, janeiro 22, 2008

Reminiscências da Portugalidade em Huelva

Para lá do Odiana, na província espanhola de Huelva, há um legado português desconhecido: alguns vocábulos portugueses, os melhores mareantes de Espanha, e o nome de um rio, o Odiel.



A província espanhola de Huelva faz fronteira com Portugal no extremo sul. A cidade de Huelva fica a 50km da fronteira portuguesa. Existe nesta província um legado de portugalidade geralmente ignorado.

Na região de Huelva estão presentes no falar das gentes palavras únicas que não são usadas em mais nenhum lugar de Espanha. Tratam-se de palavras portuguesas, apesar tal facto ser geralmente ignorado pelos falantes e pelos outros espanhóis que as tomam por localismos.

Os exemplos mais significativos são:
(localismo/portuguesismo - palavra correspondente em Espanhol)
Abanador - Sopillo
Cincho - Ensella
Cotovia - Cotojada
Fechar - Cerrar
Fechadura - Cerradura
Tojo - Aulaga

Mas o mais interessante e curioso dos lusismos de Huelva dá nome a um rio: Odiel. O rio Odiel nasce na serra de Aracena e desagua na ria de Huelva. Esta designação atribuída a um rio é estranha à Língua castelhana. É consensual que se trata de um lusismo pois é na Língua portuguesa que os nomes com origem árabe de rios começam por Od ou Odi.

Vejamos qual a origem destes lusismos.


Um Povo e uma Língua Comuns

Antes da reconquista cristã alcançar o Sul, pensa-se que os habitantes do Algarve e os da costa de Huelva pertenceram ao mesmo grupo populacional e cultural. Os pescadores e outros mareantes da atual costa de Huelva pertilhavam as artes de pesca e de navegação com os homens do mar algarvios. Eram, afinal, os descendentes das tribos connii predominantes do sudoeste da Hispânia pré-romana. Partilhavam também, necessariamente, a mesma Língua, algum dos dialectos do Latim Vulgar que mais tarde se consolidariam nas grandes línguas neo-latinas peninsulares.

Ao contrário do que por vezes se interpreta, a Língua árabe nunca chegou a ser Língua materna da população autóctone da península, nem sequer no Sul. No tempo da ocupação moura, o Árabe era usado de modo limitado pelos povos locais sobretudo no contato administrativo com o ocupante muçulmano, o que não impediu a incorporação de vários vocábulos no falar dos povos.

A designação Odiel, em parte formada a partir do árabe ainda antes da presença política de Portugal no Sul, abona a favor desta teoria identitária das falas do ocidente peninsular. Na verdade, o Galaico-Lusitano, Língua de fusão dos dialectos latinos de norte a sul do ocidente penínsular, antecede em pelo menos duzentos anos a fundação de Portugal.


A Separação

Durante a reconquista cristã, Portugal e Leão, e depois Castela, competem pela definição da fronteira comum à medida que vão expulsando os mouros para Sul. A pressão portuguesa sobre a Andaluzia ocidental, a margem esquerda do Odiana, foi sempre notória. Até D.Afonso III, todos os Reis portugueses participaram ou ordenaram incursões militares na zona e controlaram território. D.Sancho I chegou a estar às portas de Sevilha.

Os castelhanos tentaram sempre remeter a fronteira com Portugal para as margens do Odiana. Essa seria uma forma de limitar as veleidades militares de um vizinho que ao tempo era poderoso. Conseguiram parcialmente esse objetivo em 1297, pelo Tratado de Alcanizes, quando as últimas localidades portuguesas na Andaluzia - Arouche (esp.Aroche), Aracena e Aiamonte - foram cedidas a Castela.


Os Melhores Mareantes de Espanha

No início da expansão marítima de Espanha, os seus governantes procuraram homens que se equiparassem aos marinheiros portugueses. Foram encontrá-los às portas de Portugal, na costa de Huelva. Esses homens eram reconhecidos como os mais aptos de Espanha, os únicos que partilhavam as aptidões e qualidades marítimas dos portugueses seus vizinhos.

Assim, também Colombo recrutou na costa de Huelva os marinheiros que o haveriam de acompanhar na travessia do Atlântico em busca da Índia. Este facto resolve a questão de saber porque alguns dos marinheiros de Colombo falavam português, já que não eram portugueses. Tudo indica que há quinhentos anos, os povos da margem esquerda do Odiana, em especial os que viviam ligados ao mar, partilhavam a língua com os seus vizinhos algarvios.


Para lá do Odiana, na província espanhola de Huelva, há um legado português desconhecido: alguns vocábulos portugueses, os melhores mareantes de Espanha, e o nome de um rio, o Odiel.

2 comentários:

Range-o-Dente disse...

Caro Pedro Porto,

Pois eu andei uns anos por aqui:

http://maps.google.com/maps?hl=en&ie=UTF8&ll=37.541515,-7.537565&spn=0.029162,0.050254&t=h&z=15&om=0

(Espero que o link fique inteiro)

É paisagem e gente que nos marca.

Enfim, outras vidas.

Anônimo disse...

Caro Pedro Porto.
Excelente artigo. Muito obrigado por partilhar.

Draco